segunda-feira, 20 de abril de 2009

Os 5 sentidos do Ator


Como nação, evidentemente perdemos a sensibilidade, de tal modo que tem surgindo em todos os lugares grupos de encontro cuja parte essencial de seus programas parece ser aprender a tocar um aos outros.

O clamor público diário sobre a inabilidade dos seres humanos de se comunicarem entre si significa não que não estendamos a mão para tocar, mas também que não estabelecemos contato visual ou auditivo uns com os outros. Nossas percepções estão embotadas.

O contato humano pleno emprega todos os sentidos, quanto mais intensos e desenvolvidos são eles, mais disponível é o potencial do ator, ou seja, seu talento. Como já havia dito antes, essa área da alta sensibilidade é onde reside o verdadeiro talento, e o que fazemos com essa sensibilidade determina se podemos ou não nos considerar artistas.

Há um grande perigo em não dar o devido valor aos cinco sentidos, e a maioria das pessoas não dá. Quando se conscientiza de que são infinitas as fontes que se aproximam de você quando toca de verdade, prova, cheira, vê e ouve, você também deve se dar conta de que o auto-envolvimento entorpece os sentidos, e a vaidade os estrangula até você acabar atuando sozinho – e de maneira absurda.

Existe uma história engraçada sobre John Barrymore e a época em que ele estava atuando com o irmão Lionel, que ele adorava.
Eles deviam ser inimigos na peça, John achava difícil executar as ações exigidas porque, sempre que olhava para os suaves olhos castanhos de Lionel, derretia de afeição fraternal. Parece que John detestava o cheiro de óleo de almíscar; então em segredo, borrifou um pouco desse óleo no figurino do irmão. Toda vez que Lionel chegava perto dele no palco, John se enchia de ódio.

Não estou recomendando esse tipo de apelo à realidade exterior como auxílio quando outras substituições falharem; estou apenas exemplificando o poder do odor como estimulante. Um cheiro particular de couro pode me enviar a uma loja numa rua charmosa do Tirol e me fazer sentir a mesma excitação e o mesmo romantismo de quando estive lá. Pense em como o perfume de colônia ou do sabonete pode afetá-lo se vem de alguém que você ama. Pense em como esse mesmo perfume pode, por associação, afetá-lo se exala de um transeunte casual; como o cheiro e o som de bacon fritando podem produzir uma sensação de bem-estar. Um cheiro desagradável pode ter o mesmo grau de sugestão psicológica.

O gosto, seja de um beijo, de um remédio amargo, de uma comida deliciosa, seja de uma bebida forte, não apenas é importante como também deve ser totalmente explorado, porque, na maioria dos casos, você não terá no palco a coisa real, nem vai quere-la. A bebida deve bastar como exemplo. Se suas papilas gustativas estavam alertas quando ingeriu um pouco de suco de tamarindo ou algo que contenha álcool , você se lembrará do que aconteceu com a sua boca, garganta e estomago. Assim, você será capaz de conferir as mesmas propriedades ao fole de água colorida no palco.

Se tenho de descascar e cortar uma cebola no palco, provavelmente terei que usar uma maçã ou uma batata, porque a cebola real poderia me dominar e me fazer sair do controle. Não será difícil dotar a batata dos elementos da cebola se já descobri e fiquei alerta ao cheiro, a subseqüente ingestão no nariz e a ardência nos olhos que me faz chorar. Suponhamos que eu tenha de morder a cebola ou chupar um limão. Preciso de uma poderosa sensação de gosto, de modo que, ao substituí-los por outro objeto no palco, terei as sensações e os ajustes semelhantes.

Explore as infinitas variações de um simples aperto de mão: se você realmente estabelecer contato, se é algo além de uma expressão social mecânica, se você está apertando a mão de um amigo ou de um inimigo, ou se é uma apresentação a alguém atratente do sexo oposto. Fique alerta a textura de pele quando você entrar em contato com ela, ao calor ou a frieza da mão, à sua secura ou à umidade, à aspereza ou à suavidade da pele, à pressão ou à frouxidão no aperto.

Comece a se conscientizar mais da textura não apenas da carne, mas também do pano, da madeira, da prata, do vidro – de qualquer coisa com que você entre em contato, agradável ou não, ao longo do dia.

Poucas pessoas são afortunadas o bastante para ter os cinco sentidos desenvolvidos com igual intensidade, mas o ator deve esperar, rogar e trabalhar o máximo da recepção visual e auditiva. Se você realmente vir um
delicado vidoeiro ou uma sequóia-gigante...







... ou se você realmente presenciar uma onda quebrando na praia com a luz do sol brilhando na crista, ou uma nuvem escura ultrapassando uma outra pequena, branca e fofa, o coração talvez dispare.





A mesma recepção visual real de um ser humano pode produzir: “ Mas silencio! Que luz se escoa agora da janela? É o oriente, e Julieta é o Sol!!”

O contato que nossos ouvidos tem com sons, palavras, melodias e tonalidades é igualmente crucial para desenvolver e enriquecer nosso instrumento inteiro. Receber a nuança da ação verbal e do tom da voz em vez de apenas finaliza-la de modo factual com nosso sentido auditivo faz toda a diferença entre um bom ator e um canastrão.

Muitos cometem alguns erros técnicos comuns de visão e audição. Um ator diz: “ Tenho certa dificuldade em ouvir bem no palco”. Ele está fazendo contato com a palavra que lhe foi enviada com a idéia errônea de que basta concentração em cada palavra para que ouça melhor. As palavras são enviadas com um conteúdo de maneira ativa. Você deve procurar ouvir o propósito das palavras a fim de recebê-las, mas também segundo seu próprio ponto de vista e sua expectativa.

Não recomendo que você faça disso uma regra ou uma desculpa para sua vida no palco, mas na vida real não escutamos tudo o que nos está sendo realmente dito. Se exponho uma longa teoria sobre interpretação e tenho sorte, você escuta uns três quartos dela. Você vai avaliar o que ouve com base no que já sabe ou pensa saber, e sua atenção muitas vezes seguirá os próprios caminhos, formulando idéias à própria maneira. Alguma coisa que eu disse dez vezes durante um semestre aparece de maneira nova e o rosto de um ator se ilumina. “Nunca ouvi isso antes!”. Suas suposições mudaram, ele agora ouve em uma nova estrutura de compreensão daquilo que digo. Portanto, no palco, se particularizar o conteúdo e o propósito do que está sendo enviado e escutar isso sob as circunstâncias dadas, a audição deixará de ser um problema para você.

Também “ouvimos” com os olhos. Nossos olhos, assim como os ouvidos, avaliam e interpretam. Interpretamos o conteúdo e a intenção a partir da expressão ou do movimento que a ação conferiu às palavras. Uma frase como “ Que conversa fiada!” dita de maneira agressiva com sorriso pretensioso pode enfurecer. As mesmas palavras ditas com uma risada e um tapinha nas costas podem provocar em mim um acesso de riso, dependendo de quem fez o quê para mim.

Da mesma maneira que não entro em contato com a palavra individual, isolada, quando escuto, tampouco prendo fixamente meu olhar num interlocutor para percebe-lo de verdade enquanto estou falando. Olhar, assim como ouvir, depende das necessidades imediatas, além do conhecimento prévio que você tem do objeto.

Eu, às vezes, dou risada quando um ator fita o interlocutor infinitamente durante a cena e diz que está trabalhando por um “contato olho no olho”. Tente contar para alguém algo sobre um evento que acabou de ocorrer e obrigue-se a não tirar os olhos dele enquanto fala. Provavelmente, no meio da primeira sentença você vai querer desviar o olhar – não porque não quer ver o outro, mas porque, embora de fato esteja vendo, perdeu contato com os objetos internos sobre os quais estava falando, e assim, esquecerá o que está dizendo.

Realmente, quando estamos falando, olhamos de maneira intermitente para a pessoa com quem estamos conversando, para ver como reage ao que estamos dizendo, se temos sua atenção, se está entendendo etc. O que vemos nela nesse momento determina como continuaremos o relato. Nesses instantes de contato olho no olho, contatamos os objetos internos com que estamos lidando, e nosso foco externo, secundário, está em algo trivial no lugar.

Escutar e olhar não são, com certeza, processos mecânicos, mas estão vinculados ao centro de nosso ser psicológico e físico. O olhar e o ouvir simulados produzem, por certo, má atuação.

Por causa da enorme importância dos cinco sentidos, deve haver um trabalho continuo para intensifica-los e aguça-los. Qualquer coisa adormecida que você possa despertar pela concentrada atenção diária em seus sentidos contribuirá para o crescimento como ator.

Libertem-se.
Abram-se em sua capacidade máxima – para dar sentido ao que vocês recebem quando vêem, ouvem, provam, cheiram, tocam.


Capítulo 6 “extraído” do livro TÉCNICA PARA O ATOR; A ARTE DA INTERPRETAÇÃO ÉTICA – de Uta Hagen com Haskel Frankel.

2 comentários:

Nanny, ♥ disse...

amei! vou comprar esse livro *--*.

Pedro Rasta disse...

Todos de um modo geral, estão sendo sempre convidados a explorar melhor os 5 sentidos. Os portadores de deficiência visual, já o fazem muito bem. Os amantes da arte de interpretar tbém são ensinados e estimulados (nos exercícios, nas aulas, nas oficinas)e desafiados a ¨sentir¨ melhor. Se conseguirmos, teremos como resultado, uma performnce satisfatória, um atuar + convincente. ***Show de bola, Ju. Como disse a Nanny: AMEI! rsrsr...